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Alessandro Damasceno

A REALIDADE NÃO VEM PRONTA

O que Janis Joplin, a Virgin e a Nike tinham em comum antes de serem Janis Joplin, Virgin e Nike.

Alessandro Damasceno

Mulher de braços erguidos no meio de uma multidão, cigarro na mão, em imagem de arquivo dos anos 1970.

A fotografia de Janis Joplin tem qualquer coisa de documento criminal de uma civilização que decidiu testar os próprios fusíveis.

Ela está no meio de uma multidão, em pleno Rio de Janeiro, braços erguidos, cigarro na mão, cabelo em estado de insurreição, cercada por gente que parece ter acabado de descobrir que a vida talvez não precisasse ser administrada como uma repartição pública. Não existe ali o menor esforço para parecer espontâneo. Eles simplesmente eram. Essa diferença, hoje quase arqueológica, explica metade do século XX.

Janis morreu aos vinte e sete anos, depois de uma carreira tão curta que ainda parece impossível encaixá-la no tamanho da memória que deixou. Heroína. Álcool. Hotéis. Turnês. Uma voz capaz de arrancar a tinta das paredes. Nada disso era exatamente novidade no fim dos anos 60, mas havia naquele mundo uma relação com o risco que desapareceu. Não porque ninguém soubesse que heroína matava. Sabiam. O que não existia era esta gigantesca indústria contemporânea de antecipação das consequências.

Hoje você pode arruinar uma reputação antes do café da manhã e descobrir o estrago pelo telefone antes do almoço. Em 1968, era possível atravessar três estados, dormir na casa de desconhecidos, ingerir alguma substância cuja procedência terminava na palavra de um sujeito chamado Moon, desaparecer por quatro dias e retornar à existência sem ter produzido um único registro digital do acontecimento.

Isso muda pessoas. Muda artistas. Muda também empresários. É aqui que Janis Joplin, de maneira aparentemente absurda, começa a conversar com Richard Branson e Phil Knight.

Passe tempo suficiente olhando para os anos 60 e 70 e você percebe que a contracultura não produziu apenas discos, drogas, cabelos compridos e estudantes descobrindo Lao-Tsé depois de três comprimidos de procedência duvidosa. Produziu uma determinada disposição mental: a ideia de que instituições não eram necessariamente monumentos. Eram coisas que alguém havia inventado. Logo, poderiam ser inventadas novamente.

Richard Branson parece ter entendido isso antes mesmo de possuir vocabulário empresarial para explicar o que estava fazendo. Primeiro uma revista estudantil. Depois discos pelo correio. Depois uma loja. Depois um estúdio. Depois uma gravadora. A Virgin não nasceu como aqueles diagramas corporativos nos quais alguém desenha sete unidades de negócio, três holdings e uma flecha apontando para "escala" antes de vender o primeiro parafuso. Nasceu porque um garoto de dezesseis anos começou a fazer alguma coisa e, quando aquela coisa exigiu outra coisa, ele criou a outra coisa. É quase ofensivamente simples.

Quando Mike Oldfield aparece e Tubular Bells transforma a Virgin Records em algo sério, o edifício institucional parece retrospectivamente inevitável. Não era. Alguns anos antes, aquilo era um jovem vendendo discos pelo correio a leitores de revistas. Essa é uma das ilusões produzidas pelo sucesso: depois que o edifício está pronto, ninguém consegue imaginar o terreno vazio.

A Nike sofre da mesma ilusão retrospectiva. Hoje é impossível olhar para aquele Swoosh sem enxergar bilhões de dólares, contratos, atletas, laboratórios, fábricas, campanhas e uma maquinaria cultural suficientemente poderosa para transformar um pedaço de borracha em identidade. Mas retire tudo isso. Volte a 1964.

Antes da Nike existia a Blue Ribbon Sports. E antes de Phil Knight ser Phil Knight, havia um jovem vendendo tênis japoneses Onitsuka Tiger em competições de atletismo, carregando caixas no porta-malas de um Plymouth Valiant verde e procurando corredores interessados. Ao lado dele havia Bill Bowerman, treinador de atletismo da Universidade de Oregon, espécie de mecânico metafísico do pé humano, desmontando calçados, modificando solas, alterando materiais, perseguindo gramas como se cada uma delas fosse uma conspiração contra seus atletas.

Enquanto isso, a Adidas já era Adidas. Empresa internacional. História. Distribuição. Prestígio olímpico. Atletas correndo diante das câmeras com as três listras nos pés. Essa assimetria é magnífica. De um lado, uma multinacional. Do outro, caixas de tênis num automóvel.

É difícil imaginar uma representação mais perfeita do capitalismo americano em seu estado psicótico original. Não havia nenhuma razão particularmente racional para acreditar que aqueles sujeitos se tornariam a Nike. E talvez exatamente por isso tenham conseguido.

Phil Knight não precisava derrotar a Adidas naquele momento. Precisava vender o próximo par. Bill Bowerman não precisava revolucionar a indústria mundial do calçado esportivo. Precisava descobrir se aquele corredor conseguia fazer a curva alguns segundos mais rápido. Richard Branson não precisava construir um conglomerado. Precisava vender discos. Janis Joplin não precisava representar uma geração. Precisava subir no palco.

Existe alguma coisa em comum entre todos eles que nossa época, obcecada por planejamento, métricas e apresentação, tem dificuldade de compreender.

A ação vinha antes da identidade.

Ninguém precisava primeiro tornar-se alguma coisa para depois fazer alguma coisa. Fazia. E, se sobrevivesse tempo suficiente, descobria o que havia se tornado.

Talvez por isso tantas empresas daquela época pareçam ter surgido de garagens, apartamentos, porta-malas, pequenos escritórios, lojas improvisadas e conversas que começaram sem ninguém perceber que estavam fundando coisa alguma. Havia menos dinheiro em muitos casos. Menos tecnologia. Menos informação. Mas havia uma vantagem: ainda existiam territórios psicológicos não ocupados.

Passei tempo suficiente pesquisando entre Tóquio e o Vale de San Fernando para aprender que cidades diferentes produzem neuroses diferentes, mas a humanidade permanece fascinantemente constante. Dê a alguém um mercado novo, alguma liberdade, duas noites sem dormir, três livros bons e convicção suficiente para ignorar pessoas prudentes, e alguma coisa acabará acontecendo. Às vezes um disco. Às vezes uma empresa. Às vezes uma overdose. Às vezes um império.

O erro é separar demais essas histórias. Gostamos de colocar Janis Joplin na prateleira da contracultura e Phil Knight na seção de administração. Branson recebe biografias empresariais. Bowerman entra para a história da inovação. Cada personagem é cuidadosamente colocado em seu departamento, como se o século XX tivesse sido organizado por bibliotecários.

Não foi.

Eles habitavam o mesmo clima psicológico. Experimentação. Improvisação. Desconfiança de estruturas estabelecidas. Uma tolerância hoje incomum ao ridículo. E, acima de tudo, uma extraordinária disposição para começar antes que alguém concedesse autorização.

Foi assim que comecei olhando para uma fotografia de Janis Joplin e terminei falando sobre Virgin e Nike. Na superfície, parece uma conversa que perdeu o rumo. Talvez tenha encontrado.

Porque por trás de Janis, de Branson e de Phil Knight existe a mesma velha heresia: a realidade não vem pronta. Alguém a fabrica.