NADA DE PÉ
A cidade nunca teve problema com o passado. Tem problema com passados que ainda estão de pé.
Alessandro Damasceno
Em outubro de 1993, navios piratas abriram fogo contra um hotel de quarenta anos.
Os navios eram cenografia do Treasure Island, do outro lado da rua. Os canhões não disparavam nada. As trezentas e sessenta e cinco libras de dinamite já estavam dentro do Dunes havia dias, colocadas por profissionais, e o roteiro exigia apenas que a salva de tiros coincidisse com a detonação. Coincidiu. O prédio desceu diante de câmeras de televisão, fogos de artifício e uma multidão que havia ido até ali para assistir a um hotel morrer.
O terreno era de Steve Wynn, que construiria no lugar o Bellagio, e a ideia da encenação também. Antes daquela noite, demolir um cassino era serviço de engenharia. Depois dela, virou programação. Geoff Schumacher, historiador do Mob Museum, resume o efeito: instalou-se na cidade a noção de que destruição naquela escala merecia plateia.
A plateia apareceu com regularidade impressionante. O Landmark foi partido ao meio verticalmente em novembro de 1995, e Tim Burton achou a imagem tão boa que a usou em Mars Attacks!, atribuindo a queda a marcianos. O Sands, quarenta e quatro anos de operação e endereço do Rat Pack, virou pó em novembro de 1996 — o Venetian ocupa hoje quase o mesmo chão. Cinco semanas depois, na virada do ano, o Hacienda foi ao chão como número central de um especial de réveillon da Fox, com a festa montada em frente ao Mirage e apresentações do Doobie Brothers, do Hootie and the Blowfish, do Salt-N-Pepa e de Siegfried & Roy. Quando o Stardust caiu, em março de 2007, a Strip já tinha visto nove resorts implodidos em catorze anos, e o New York Times registrou a regra local: estruturas antigas são descartadas assim que deixam de ser úteis.
Isso costuma ser lido como desprezo pela própria história. É leitura generosa demais com a alternativa. Cidades que preservam edifícios preservam também a versão de si mesmas que aqueles edifícios contam, e essa é exatamente a mercadoria que Las Vegas precisa poder trocar.
A cidade nunca teve problema com o passado. Tem problema com passados que ainda estão de pé.
O primeiro deles nem chegou a existir do jeito que é contado. Billy Wilkerson, dono do Hollywood Reporter, comprou o terreno e começou a construir o Flamingo em 1945; queria trazer para o deserto o padrão dos night clubs caros do sul da Califórnia e a clientela que os frequentava. Benjamin Siegel entrou no projeto e o empurrou para escanteio em meados de 1946. Não havia deserto vazio: o El Rancho Vegas abrira em 1941 e o Hotel Last Frontier em 1942, ambos na mesma estrada.
A inauguração, em 26 de dezembro de 1946, também não foi o desastre que todo mundo sabe de cor. Foram três noites, e houve público nas três; tempestades no oeste atrasaram voos e mantiveram parte das celebridades de Hollywood fora da primeira. A versão do salão vazio, da tempestade e do cassino às escuras vem de outro lugar — de um filme de 1991 com Warren Beatty, que é onde a maior parte dos americanos aprendeu tudo o que julga saber sobre o assunto. Larry Gragg precisou de mais de duas mil e quatrocentas páginas de arquivos do FBI, documentos do arquivo municipal de Nova York e o depoimento de 1950-51 ao comitê do Senado sobre crime organizado para desmontar o que um roteirista havia montado em duas horas.
Siegel foi assassinado em junho de 1947, o que é a melhor coisa que pode acontecer a um personagem que se pretende fundador. Homem morto não corrige narrativa.
A cidade que se ergueu sobre essa lápide vendia uma promessa específica, e ela ficou perfeitamente registrada em janeiro de 1960, quando Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop se instalaram no Copa Room do Sands. Filmavam Ocean's 11 dentro do próprio hotel durante o dia e subiam ao palco à noite, de modo que o produto e a propaganda do produto eram fabricados no mesmo endereço, com o mesmo elenco, em turnos alternados. O que estava à venda não era jogo. Era a sensação de estar do lado de dentro de uma sala à qual quase ninguém tinha acesso — smoking, uísque, piada interna, o país inteiro olhando pela fresta.
Duas décadas depois aquilo tinha virado um problema contábil. Nenhum hotel grande havia sido construído na Strip desde 1973, as receitas dos cassinos de Nevada tinham caído no começo dos anos 80 e havia analista sério afirmando que o mercado estava saturado. Foi nesse cenário que Steve Wynn decidiu gastar seiscentos e trinta milhões de dólares num resort de três mil quartos com um vulcão na calçada.
O dinheiro veio de onde dinheiro daquele tamanho vinha naquela década. Cerca de quinhentos e sessenta e cinco milhões foram levantados pela Drexel Burnham Lambert, e na manhã de 22 de novembro de 1989 Wynn estava parado na porta do Mirage ao lado de Michael Milken, que àquela altura já havia sido indiciado, mandando a segurança liberar a entrada. Calculava-se que o hotel precisaria faturar um milhão de dólares por dia apenas para servir a dívida. Anos depois, Wynn resumiria a operação em quatro palavras: sem o Mike, nada de Mirage.
A Drexel quebrou no ano seguinte. Milken se declarou culpado, pagou seiscentos milhões de multa, cumpriu vinte e dois meses e foi perdoado em 2020. O vulcão continuou explodindo a cada quinze minutos durante todo esse período, o que é uma boa medida do quanto a estrutura financeira de um mito importa para quem o consome.
O Mirage funcionou, e funcionar significa que todo mundo copiou. O Excalibur abriu em junho de 1990 como maior hotel do mundo, castelo de mentira e torres que precisavam ser repintadas a cada três ou quatro anos por causa do sol. Em três meses do fim de 1993 vieram o Luxor, o Treasure Island e o MGM Grand — este último com seis mil oitocentos e cinquenta e dois quartos, o primeiro resort a passar de um bilhão de dólares em construção. E, atrás dele, trinta e três acres de parque de diversões, aberto no mesmo 18 de dezembro, com nove cenários temáticos e brinquedos para crianças jovens demais para apostar.
Era a segunda Vegas. Você já não precisava querer entrar naquela sala; podia levar as crianças até a porta.
Durou pouco e foi enterrada com uma eficiência que merece exame. Em 1997 o MGM cortou um terço do parque para construir uma piscina, e um cronista local traduziu a decisão sem piedade: o tema de Las Vegas era Las Vegas. O restante fechou ao público em setembro de 2000, e o terreno virou condomínio de luxo em 2002.
Só que a coisa importante aconteceu antes disso, nos livros, sem cerimônia de demolição. Em 1999, pela primeira vez, a receita não vinda de jogo superou a receita de jogo na Strip. O quarto de hotel havia virado centro de lucro, o restaurante deixara de ser isca para atrair jogador, o espetáculo residente do Cirque du Soleil no Treasure Island transformara entretenimento caro em item permanente. A cidade já era outra coisa quatro anos antes de dizer que era.
A frase veio em fevereiro de 2003. "What happens here, stays here" saiu de uma agência local, a R&R Partners, contratada pela Las Vegas Convention and Visitors Authority — órgão quase governamental criado pela legislatura de Nevada em 1955 e sustentado por imposto sobre hospedagem, o que significa que a nova mitologia da cidade foi encomendada com dinheiro de taxa pública. No mesmo ano, os piratas do Treasure Island foram substituídos por sereias.
A agência conta que o slogan foi lampejo simultâneo de dois funcionários que teriam chegado à mesma ideia por conta própria, o que é uma história bonita e provavelmente verdadeira em algum grau irrelevante. O que veio antes é mais instrutivo: testaram "Freedom Party", testaram "Vegas is Calling", testaram "What You Want, When You Want It", testaram "Las Vegas — Open 24 Hours". Nenhum pegou. Depois, em novembro de 2004, o presidente da autoridade transferiu os direitos de marca do slogan, incluindo lucros potenciais, para a própria agência de publicidade — movimento que representantes de outros birôs de turismo classificaram como altamente incomum, já que a prática do setor é o órgão público reter o registro. O mesmo executivo renunciaria em 2018 depois de se declarar culpado de contravenção por uso indevido de dezessete mil dólares em vale-presente.
A terceira Vegas vendia anonimato: liberdade adulta, ausência de julgamento, a possibilidade de deixar a identidade cotidiana em casa por três dias. É uma promessa diferente da de 1960. Sinatra vendia pertencimento; 2003 vendia suspensão. Uma exigia que você fosse alguém naquela sala. A outra exigia que você não fosse ninguém.
E, para instalá-la, foi preciso demolir a versão anterior — desta vez sem dinamite.
A narrativa de que Las Vegas tentou ser familiar e fracassou espetacularmente circula até hoje como fato consumado. Historiadores e jornalistas que cobrem a cidade discordam. A prova mais citada do fracasso é um único parque temático, e o resto do inventário sobrevive: a piscina de ondas do Mandalay Bay, os brinquedos no alto do Stratosphere, o Adventuredome, a montanha-russa do New York-New York, os passeios de gôndola do Venetian, mágicos que se apresentam há décadas para plateia de todas as idades. A visitação, que era de vinte milhões em 1990, chegou a trinta milhões em 1997 — no meio exato da era supostamente desastrosa.
Um parque promovido a obituário de uma década inteira. É um resultado notável para uma operação de relações públicas, e ninguém precisou mentir: bastou deixar de contar o resto.
Nada disso é acidente de percepção. Um mito novo não convive com o anterior em pé de igualdade, porque a existência da versão antiga é a evidência de que a atual é escolha, e não natureza. Uma cidade que se apresenta como capital irrevogável do pecado adulto não pode ter fotografias recentes de famílias em fila para carrossel. Ou o carrossel some, ou a memória dele some. Em Las Vegas costumam sumir os dois.
A quarta versão está em curso e opera pelo mesmo manual. Os Golden Knights chegaram em 2017, as Aces em 2018, os Raiders foram rebatizados em janeiro de 2020 diante do estádio novo, a Sphere abriu em setembro de 2023 e a Fórmula 1 correu na Strip dois meses depois, com contrato estendido até 2037. O slogan foi atualizado para "what happens here, only happens here" e foi ao ar, pela primeira vez, na transmissão do Super Bowl. Vinte e um anos antes a mesma agência tinha tentado comprar o mesmo espaço para a versão anterior da frase e fora recusada pela liga, por associação com jogo. A recusa, na época, gerou milhões em publicidade gratuita — o que também é um jeito de comprar espaço.
E em outubro de 2024, antes do amanhecer, com fogos, o Tropicana veio abaixo depois de sessenta e sete anos. Era o último prédio genuinamente da era da máfia na Strip, terceiro cassino mais antigo da avenida, e o terreno foi limpo para um estádio de beisebol de um bilhão e meio de dólares. Restou o Flamingo, que só existe como nome: as estruturas originais foram embora há décadas, o cassino foi inteiramente reconstruído nos anos 90.
O prédio onde a primeira Vegas foi inventada não está mais lá. O prédio onde a segunda foi inventada não está mais lá. O do Rat Pack virou Veneza. E a última construção que ainda encarnava alguma dessas histórias foi transformada em pó para abrir espaço à seguinte.
Cidades guardam ruínas porque não conseguem pagar para removê-las.
Esta pode.